O Fracasso do nacionalismo reformista
João Goulart tomou posse da presidência em 7 de setembro de 1961. A chefia de governo (poder executivo), no entanto, coube a Tancredo Neves, político do PSD mineiro, empossado como primeiro-ministro no mesmo dia, de acordo com o sistema parlamentarista. Mas esse sistema não duraria mais que 14 meses.
A emenda constitucional que tinha estabelecido o parlamentarismo previa que a adoção desse sistema de governo deveria ser referendada por um plebiscito. Realizado em 6 de Janeiro de 1963, o plebiscito reuniu votos de mais de 12 milhões de cidadãos. Destes quase 10 milhões manisfestaram-se contra o parlamentarismo, votando pelo restabelecimento do presidencialismo.
Plano Trienal
O governo de João Goulart iniciou-se num período de graves problemas econômicos e sociais no país, e com uma inflação que não foi suficientemente controlada. Sua estratégia socioeconômica foi formalizada em 1962, por meio do Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, organizado por Celso Furtado, economista que ocupava o cargo de ministro do Planejamento.
O Plano Trienal tinha como objetivos fundamentais:
- promover melhor distribuição das riquezas nacionais, desapropriando os latifúndios improdutivos para defender interesses sociais;
- encampar as refinarias particulares de petróleo;
- reduzir a dívida externa brasileira;
- diminuir a inflação e manter o crescimento econômico sem sacrificar exclusivamente os trabalhadores.
Mas a inflação e o custo de vida não paravam de subir. As despesas com as importações aumentavam, e caíam os preços da exportações. Também diminuía o ritmo de crescimento da indústria, e os grandes empresários nacionais e estrangeiros reduziam os investimentos na produção, numa demonstração de desconfiança em relação às intenções políticas de Jango.
Polarização da sociedade
O período do governo Goulart foi marcado, desde o início, pela mobilização social e política de diversos setores da sociedade brasileira. Com o tempo, esses movimentos e associações foram levando a uma radicalização das posições e das ações e à polarização social.
De um lado, estavam movimentos que traziam reivindicações populares e pregavam transformações que, segundo eles, visavam a uma sociedade mais justa e igualitária. Eram mobilizações de:
- Estudantes: ligados a União Nacional dos Estudantes (UNE) e à Juventude Universitária Católica (JUC);
- Operários: ligados à Central Geral dos Trabalhadores (CGT);
- Camponeses: ligados às Ligas Camponesas, que se difundiam principalmente pelo Nordeste.
Chegando a 1964, O Plano Trienal fracassara, e as tensões sociais aumentavam no país. Então, em 13 de março de 1964, João Goulart, falou a mais de 300 mil pessoas num comício em frente à estação Central do Brasil (área de grande afluência popular no centro do Rio de Janeiro). Expôs as dificuldades do país e a necessidade de realizar um conjunto de reformas, que seriam adotadas pelo seu governo.
Eram as chamadas reformas de base, que acirraram ainda mais os ânimos das elites dominantes e contrariaram os interesses estrangeiros. Entre elas, estavam:
- Reforma agrária: para facilitar o acesso à terra de milhões de lavradores que desejavam trabalhar e produzir no campo. Com melhores condições de vida e de trabalho, o morador do campo permaneceria em seu local de origem e não se dirigiria para as grandes cidades em busca de emprego;
- Reforma educacional: para aumentar o número de escolas públicas, matricular todas as crianças brasileiras e combater o analfabetismo;
- Reforma eleitoral: para dar ao analfabeto o direito de votar nas eleições e participar da vida política;
- Reforma tributária: para corrigir as desigualdades sociais na distribuição dos deveres entre ricos e pobres, patrões e empregados.
Alguns setores populares favoráveis ao governo passaram a fazer manifestações em apoio às reformas de base. Paralelamente, as oposições organizaram seus protestos, como a Marcha da Família com Deus pela liberdade - série de passeatas de senhoras católicas, autoridades civis, empresários e parte da classe média. A primeira marcha ocorreu em São Paulo no dia 19 de março.
A agitação política e social intensificou-se no país. Grupos de esquerda e de direita radicalizavam suas posições. Em Brasília, 600 sargentos dos exército e da Aeronáutica ocuparam a tiros suas guarnições, para exigir o direito de voto. A rebelião dos sargentos foi controlada, mas os oficiais militares se assustaram com a indisciplina da tropa e responsabilizaram o governo pelo ''clima de desordem''.
Golpe militar
Em 31 de Março de 1964, explodiu a rebelião das Forças Armadas contra o governo João Goulart. O movimento militar teve início em Minas Gerais, apoiado pelo governador mineiro Magalhães Pinto. Rapidamente, os golpistas contaram com a adesão de unidades militares de São Paulo, do Rio Grande do Sul, e do antigo estado da Guanabara (criado em lugar do Distrito Federal, situado na cidade do Rio de Janeiro até a transferência da capital federal para Brasília, em 1960).
Sem condições de resistir ao golpe militar, o presidente João Goulart deixou Brasília em 1° de Abril de 1964. Passou pelo Rio Grande do Sul e, em seguida foi para o Uruguai como exilado político. Era o começo do período de governos militares.
Ruptura com o regime democrático
Logo após a deposição do presidente João Goulart, em 2 de Abril de 1964, Ranieri Mazzilli - que ainda era o presidente da Câmara dos Deputados - assumiu pela segunda vez, de maneira interina, a presidência da República. No entanto, o controle político do país ficou sob a direção geral das Forças Armadas.
Cada uma de suas corporações (Exército, Marinha e Aeronáutica), no mesmo dia 2 de Abril, indicou um representante, e formou-se o comando militar que conduziria o país durante duas semanas - era o autodenominado Comando Supremo da Revolução. Segundo os novos comandantes do país, a intervenção militar seria de caráter provisório, tendo como principais finalidades:
- Restabelecer a ordem social;
- Conter o avanço do comunismo e da corrupção;
- Retomar o crescimento econômico.
Mas não foi provisória a supressão da legalidade democrática. Durante 21 anos, a sociedade brasileira viveu sob o comando de presidentes militares impostos pelas Forças Armadas. Até 1985, dois marechais e três generais se sucederiam na presidência da República: Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo.